TESTE DE COMPREENSÃO ESCRITA
português europeu
NÍVEL 3
EXERCÍCIO. VAIS LER UM ARTIGO A RESPEITO DA POLUIÇÃO LUMINOSA. RESPONDE O QUESTIONÁRIO COM AS RESPOSTAS CORRETAS.
ENTRE NÓS E AS ESTRELAS
Como a poluição luminosa afecta a nossa relação com a natureza e com a humanidade
Acontecia nas madrugadas de Setembro. Um pouco antes do nascer do sol, naquelas horas azuis em que a natureza parece suster a respiração. Raul, então com os seus 13 anos, sentava-se à janela do quarto, no centro do Porto, e ficava, com os binóculos, a olhar pacientemente o céu nocturno. «Ficava à espera de a ver nascer», diz ele. «Acho que tem uma configuração mesmo muito bonita. É quase uma escultura».
Raul refere-se a Órion, uma das constelações mais reconhecidas no mundo. Nela, vemos oito estrelas que formam a imagem de um caçador, pelo menos segundo a mitologia grega. No antigo Egipto, preferiam vê-las como uma divindade, ou Sah, para onde os faraós viajavam depois de morrer.
Hoje, Raul Cerveira Lima é professor de física e investigador de poluição luminosa no Instituto Politécnico do Porto, local onde me conta o percurso que o trouxe às estrelas. «Comecei a ganhar o gosto na Serra da Freita», onde ia de férias com o pai, «mas foi o facto de poder ver as estrelas do Porto que me permitiu continuar a desenvolver o gosto».
Raul conta-me que nessa altura, em meados dos anos 80, ainda se conseguia ver a Via Láctea no Porto. Actualmente, a poluição luminosa não o permite. «A maioria dos meus alunos nunca viu a Via Láctea», queixa-se.
Não são apenas os alunos de Raul. Um estudo revelou que 60% das pessoas europeias não consegue ver a Via Láctea.1 A verdade é que estamos a perder o céu nocturno a uma taxa alarmante. Todos os anos, a claridade dos céus aumenta em cerca de 10%. Isto significa que, se nada mudar, dentro de 80 anos poderemos ver apenas cinco estrelas no céu. De Órion, nada restará.
A PERDA DE UMA HERANÇA HISTÓRICA E CULTURAL
Existem várias razões para querer saber deste desaparecimento silencioso das estrelas. A poluição luminosa, para além de causar um grande desperdício energético3, afeta também a saúde dos animais e dos humanos.
Menos conhecido, talvez, é o impacto da poluição luminosa na perda de uma herança cultural essencial à humanidade. «Ninguém vai sentar-se num quarto com as luzes ligadas e discutir o que seu tetravô fazia para se orientar no escuro», conta-me Joyful Mdhluli, colaboradora do Gabinete de Astronomia para o Desenvolvimento. Joyful acredita que, ao perdermos o céu estrelado, «há uma parte do nosso conhecimento indígena que desaparece com ele, porque já não temos as estrelas para nos sentar debaixo e contar histórias sobre a origem dos nossos antepassados».
Para além de servirem histórias, as estrelas também tinham usos muito práticos. O arqueoastrónomo Giulio Magli explica- -me que, desde o período paleolítico, há mais de 300 mil anos, quando éramos essencialmente caçadores-recolectores, as estrelas eram utilizadas para navegar o mar e saber que animais caçar. Já no império Inca, a Via Láctea era vista como um rio celestial, espelho do rio Urubamba, que estava ligado aos ciclos da terra, sinalizando as diferentes etapas da agricultura.
Com o aumento da iluminação artificial, que tem vindo a ocorrer desde a revolução industrial, fomos perdendo esta conexão com o céu estrelado. «Estamos a perder uma componente muito importante da nossa história», lamenta Giulio.
A AMNÉSIA ECOLÓGICA CAUSADA PELO «DESENVOLVIMENTO»
Apesar de a poluição luminosa ter vindo a aumentar desde a revolução industrial, nada se compara ao aumento que tem vindo a acontecer nas últimas décadas. Em apenas 25 anos, entre 1992 e 2017, a poluição luminosa aumentou em mais de 270%, chegando a 400% em alguns locais.
Raul acredita que uma das razões pelas quais temos tanta luz é porque teimamos em associá-la a desenvolvimento. Ele põe a hipótese de que, no caso de Portugal, isto se possa dever ao período de extrema pobreza que o país passou durante a ditadura. «A chegada de alguns bens e serviços que não existiam foi um avanço para as pessoas», tendo a luz sido um destes serviços. Por isso, foi associada a desenvolvimento. «Infelizmente, não deveria ser».
De facto, dentro do sistema capitalista, a luz é indissociável de desenvolvimento. Isto porque, na sua concepção, desenvolvimento significa crescimento, e crescimento significa consumo. Assim, grande parte da iluminação nocturna existe, não porque é necessária, mas porque reforça o modo de vida de consumo contínuo. Basicamente, «estamos à mercê de uma máquina que nos faz estar sempre em movimento», mesmo que isso seja prejudicial para nós. Mas, «como tem vantagens económicas para uma parte, é essa parte que vence».
Assim, apesar de a cada ano estarmos a perder mais estrelas, e a nossa conexão com elas, não existe incentivo para reduzir a iluminação nocturna e a poluição luminosa. O nosso descanso não dá lucro. E as estrelas também não.
Talvez a parte mais triste de como o «desenvolvimento» afectou a nossa relação com as estrelas seja o facto de nem nos apercebermos do que estamos a perder. É uma espécie de amnésia ecológica, em que aceitamos a realidade actual como «normal» e esquecemos aquilo que tínhamos e que poderíamos voltar a ter. O termo científico vem da ecologia – shifting baseline syndrome –, para significar que ao longo do tempo, ao longo de gerações, vamos diminuindo as nossas expectativas de como se deve parecer um ecossistema saudável.
Já nem sonhamos o quão bonito podia ser o céu estrelado. E, como disse Raul, «quem não sabe o que perde, não sente falta».
A FALHA (E A EMENDA) DA NOSSA RELAÇÃO COM A NATUREZA
Quando pergunto a Raul se consegue, apenas com uma palavra, descrever o que sente quando olha um céu bem estrelado, pendura-se na sala um silêncio longo. «Tenho algumas saudades dessa sensação», admite, uma vez que agora é raro ter a oportunidade de ver um céu assim. Recorda-se de sentir que fazia realmente parte de um universo, e de comparar a escala ínfima da vida humana face à grandiosidade das estrelas. «A palavra acho que é encantamento mesmo».
Raul conta que, actualmente, está mais «num sentido crítico, com pena de já não ser como era». Preocupa-se que as gerações mais novas não tenham a oportunidade de alguma vez sentir esse encantamento. Mesmo quando vão a um lugar mais escuro, «o que as crianças observam está longe de ser o que poderiam observar em condições ideais».
Há um custo associado a perder esta experiência de encantamento com o céu estrelado. A investigação mostra que pessoas que vivem em áreas com maior poluição luminosa sentem-se menos ligadas ao céu nocturno e exibem menos comportamentos de protecção da natureza.
Talvez seja surpreendente que (não) ver as estrelas possa afectar a nossa capacidade de protecção da natureza. Isto porque, quando pensamos em natureza, pensamos em árvores, rios, pássaros e montanhas. Esquecemo-nos de que «a noite é parte da natureza, as estrelas são parte da natureza». Mas, quando olhamos para o céu estrelado como parte da natureza, da mesma forma que árvores, rios, pássaros e montanhas o são, já não surpreende tanto que perder a nossa conexão com as estrelas contribua para a falha mais alargada da nossa relação com toda a natureza.
Assim, há uma possibilidade de que, restaurando o céu estrelado, restaurando o encantamento, possamos começar a restaurar a nossa relação com a natureza. «À noite, vemos milhares de estrelas e apercebemo-nos de que somos uma coisinha de nada ali no meio», reflecte Raul, «e essa sensação de fragilidade acho que nos ajuda a olhar para o resto da natureza e perceber que temos de cuidar dela».
RESTAURAR AS ESTRELAS, RESTAURAR A HUMANIDADE
A parte boa da poluição luminosa, ao contrário dos outros tipos de poluição, é que não se acumula. De um dia para o outro, se quiséssemos, poderíamos acabar com ela e voltar a ver as estrelas no céu. Raul afirma que, se reduzíssemos drasticamente a iluminação, em cerca de 70 a 80%, «poderíamos voltar a ver a Via Láctea do Porto. E sem pôr a cidade às escuras. É uma questão de saber iluminar».
Para Raul, saber iluminar não é uma questão tecnológica, mas sim uma questão política e social. «Já existe a tecnologia para iluminar as cidades correctamente – ou seja, muito pouco – não se faz por opção». Não se faz porque não é uma questão considerada relevante. Afinal, para que servem as estrelas?
É difícil convencer as pessoas do valor das estrelas. É difícil convencer as pessoas do valor de nos sentarmos à janela e, como o Raul de 13 anos, ficarmos à espera de ver Órion nascer. É difícil convencer as pessoas da importância de nos deixarmos sentir o encantamento com o universo, de desenharmos animais imaginários no céu, e de contarmos, à luz das estrelas, histórias dos nossos antepassados.
Defender o valor das estrelas é defender o valor de parar num mundo que valoriza apenas o constante movimento, ou, por outras palavras, o lucro. É uma tarefa praticamente impossível. Mas, «há um erro em atribuir um valor comercial a tudo», diz Raul. «Uma paisagem não tem valor comercial. Não deveria ter. Tem um valor intrínseco, que vale por si só, e que deveria ser protegido».
As estrelas forçam- -nos a confrontar a nossa própria pequenez e a perceber que somos parte de algo maior, que somos parte de uma natureza, de um universo.
Talvez isso seja o mais importante que as estrelas nos podem trazer, essa compreensão de que nem tudo tem de ser acerca de nós. Nem tudo nos tem de beneficiar diretamente para ser relevante. As estrelas forçam- -nos a confrontar a nossa própria pequenez e a perceber que somos parte de algo maior, que somos parte de uma natureza, de um universo.
Entre nós e as estrelas, está a poluição luminosa, sim. Mas, mais do que isso, está uma perspectiva individualista e egocêntrica que nos foi impingida por um sistema que valoriza o lucro acima de qualquer outra coisa. E, se a dissolução dessa perspectiva nos ajuda a cuidar melhor da natureza, talvez também ajude as pessoas a cuidar melhor umas das outras.
Tirado e adaptado com fins educativos de Salgado, Sara. 2026. Entre nós e as estrelas, em MAPA Jornal de Informação Crítica No. 48 [versão online no www.jornal.mapa.pt]